Uma Conversa Descontraída
Caminhamos durante horas.
Sempre para o leste.
Segundo Serena, se mantivéssemos aquele ritmo, alcançaríamos a fronteira de Gustam antes do anoitecer.
Aquilo deveria ter sido uma boa notícia.
Não parecia.
Ninguém falava.
As árvores passavam lentamente ao nosso redor enquanto seguíamos por uma trilha estreita coberta de folhas úmidas. O som das botas contra o solo, o vento entre os galhos e o ocasional ruído metálico dos movimentos de Serena eram praticamente tudo o que nos acompanhava.
Às vezes eu olhava para trás.
Não porque esperasse encontrar alguém.
Talvez porque uma parte de mim ainda não tivesse entendido que não havia mais ninguém para nos seguir.
Shini.
Kem.
Will.
Os outros.
Poucas horas antes, eu ainda era responsável por uma unidade.
Agora éramos três.
Susi caminhava alguns metros à minha esquerda.
Desde que deixamos TNH9, ela também estava diferente.
Quieta.
Nunca pensei que algum dia aquela palavra serviria para descrevê-la.
Serena vinha um pouco atrás.
Seus passos eram precisos, praticamente idênticos uns aos outros. De vez em quando, ela observava alguma árvore, alguma planta ou pequeno animal que cruzava nosso caminho.
Mas, na maior parte do tempo...
Observava a nós dois.
Talvez tentasse entender por que continuávamos andando mesmo depois de perder tanta coisa.
Talvez eu também estivesse tentando.
Foi Susi quem finalmente decidiu que já havia silêncio suficiente.
— Alguém está com fome?
Olhei para ela.
Susi ergueu uma das mãos como se estivesse respondendo à própria pergunta.
— Porque eu estou morrendo.
Continuei andando.
— Você está sempre morrendo de fome.
— Porque meu corpo precisa manter uma quantidade absurda de perfeição funcionando.
— Seu ego também consome calorias?
— Bastante.
Soltei um suspiro.
Tirei a mochila das costas sem interromper a caminhada.
— Vamos ver.
Abri um dos compartimentos.
— Tenho uma maçã, uma banana e um pacote de bolachas.
Susi parou.
Eu também.
Ela me encarou.
— O quê?
— Repete.
— Banana?
— Depois.
— Bolachas?
Ela apontou para mim.
— Aí está o problema.
Fechei parcialmente a mochila.
— Não vamos começar.
— Aquilo é biscoito.
— Bolacha.
— Biscoito.
— Bolacha.
Susi estendeu a mão.
— Me dá.
Joguei o pacote.
Ela o pegou no ar, abriu e colocou um na boca.
Mastigou lentamente.
— Biscoito.
Peguei a maçã.
— Bolacha.
Susi se aproximou.
— Quer saber outra coisa que também é uma bolacha?
Olhei para ela.
— Não.
Ela deu um tapinha seco em minha bochecha.
— Isso.
Fiquei imóvel durante alguns segundos.
Serena observava tudo.
— Você atravessou metade de uma zona de guerra só para fazer essa piada?
— Atravessei.
— Valeu a pena?
Susi colocou outro biscoito na boca.
— Muito.
Balancei a cabeça.
— Você é insuportável.
— E você chama biscoito de bolacha.
— Porque é bolacha.
Ela levantou a mão novamente.
Apontei um dedo.
— Nem pense.
Susi sorriu.
Por alguns segundos...
Parecia que nada havia acontecido.
Nenhuma missão.
Nenhum Killer.
Nenhuma Marca Negra.
Nenhuma sepultura improvisada entre as árvores.
Éramos apenas Dary e Susi discutindo sobre uma coisa completamente inútil.
Talvez fosse justamente por isso que ela tivesse começado aquela conversa.
Olhei discretamente para ela.
O sorriso permanecia.
Mas seus olhos não acompanhavam completamente.
Susi também estava tentando sobreviver.
Só fazia isso de um jeito diferente.
Serena continuava nos observando.
Susi percebeu.
— Que foi?
Serena piscou.
— Nada.
— Você está olhando para o Dary há uns cinco minutos.
Olhei para Serena.
Ela estava realmente olhando para mim.
— Está acontecendo alguma coisa?
— Não.
Ela respondeu com sua habitual tranquilidade.
Susi sorriu.
Conhecia aquele sorriso.
— Serena...
— Sim?
— Você pretende ficar olhando para ele ou vai comer logo?
Serena inclinou levemente a cabeça.
— Eu não possuo aparelho digestivo.
Parei.
Susi mordeu o lábio tentando não rir.
Serena continuou:
— Minha Centelha fornece toda a energia necessária para manter meu corpo em funcionamento. Portanto, alimentos orgânicos seriam desnecessários.
Susi perdeu a batalha.
Começou a rir.
— Não era esse tipo de comer que eu estava falando.
Serena ficou em silêncio.
Depois olhou para mim.
Depois para Susi.
— Não compreendi.
— Melhor assim — respondi.
Susi passou o braço pelos meus ombros.
Precisou abaixar um pouco o corpo por ser bem mais alta.
— Eu acho que Dary teria compreendido.
— Susi.
— Olha só. Ficou vermelho.
— Não fiquei.
— Ficou.
Serena aproximou o rosto alguns centímetros.
— A temperatura da pele dele realmente aumentou.
Fechei os olhos.
— Obrigado, Serena.
— Não há de quê.
Susi quase engasgou de tanto rir.
Continuei andando.
— Vocês duas terminaram?
— Ainda não.
— Eu terminei.
— Então terminamos.
Serena veio atrás de nós.
Alguns segundos se passaram.
Então ela perguntou:
— Qual é a relação entre vocês dois?
Susi imediatamente olhou para mim.
Já sabia exatamente o que viria.
— Não.
— Eu não disse nada.
— Seu rosto disse.
Serena continuou:
— São parceiros afetivos?
Susi ergueu uma sobrancelha.
— Namorados — traduzi.
— Sim.
— Não — respondi imediatamente.
Susi colocou uma das mãos sobre o peito.
— Nossa.
— O quê?
— Nem pensou.
— Porque não é necessário pensar.
— Poderia fingir que considera a possibilidade.
— Você é praticamente minha irmã.
Ela sorriu.
— Praticamente?
— Infelizmente.
Susi me deu uma cotovelada.
Serena olhou para ela.
Depois para mim.
— Então não possuem vínculo biológico.
— Não.
— Mas considera Susi parte de sua família.
Demorei um pouco mais para responder.
— Sim.
Susi não fez nenhuma piada dessa vez.
Apenas continuou andando.
Serena pareceu pensar naquilo.
— Entendo.
Um silêncio curto.
— Não, não entende — disse Susi.
Serena olhou para ela.
— Não?
— Família é uma dessas coisas que ninguém entende direito.
— Essa definição é contraditória.
— Bem-vinda às relações Nigen.
Serena voltou seu olhar para mim.
— Como vocês se conheceram?
Eu e Susi nos entreolhamos.
Ela sorriu.
— Conta você.
— Por quê?
— Porque você dramatiza melhor.
— Eu não dramatizo.
Tropecei em um galho.
Quase caí.
Susi abriu um sorriso ainda maior.
— Naturalmente.
Continuei andando como se nada tivesse acontecido.
Serena esperava.
Suspirei.
— Tudo bem.
Passei alguns segundos procurando por onde começar.
Havia lembranças que envelheciam.
Outras não.
Aquela parecia ter acontecido ontem.
— Foi há quatro anos.
Susi ficou alguns passos atrás de mim.
— Racoom — acrescentei.
A floresta pareceu desaparecer.
E, por alguns instantes, voltei a ter dezessete anos.
Racoom
Quatro anos antes
Minha irmã tinha ido para a guerra.
Eu havia ido para Racoom.
Naquela época, essas duas coisas pareciam ter praticamente a mesma importância para mim.
Hoje eu sei que não tinham.
Kelly era mais velha.
Mais preparada.
Mais forte.
Quando o conflito começou, os melhores soldados disponíveis foram enviados imediatamente para as linhas de frente.
Ela estava entre eles.
Eu fiquei.
Não gostava da sensação.
Então fiz o que um garoto de dezessete anos cheio de certezas provavelmente faria.
Decidi que também me tornaria soldado.
Racoom era a capital dos Nigen.
Eu nunca tinha visto nada parecido.
Vinha do interior, onde a tecnologia já fazia parte de praticamente tudo, mas aquilo estava em outro nível.
Prédios gigantescos cortavam o céu.
Hologramas se projetavam entre edifícios.
Painéis digitais exibiam notícias da guerra, propagandas militares e informações de emergência.
Veículos movidos a energia solar cruzavam as avenidas praticamente sem produzir ruído.
E milhares de pessoas caminhavam de um lado para outro como se o mundo não estivesse começando a desmoronar.
Talvez essa fosse a coisa mais estranha.
A guerra já havia começado.
Mas Racoom ainda parecia viva.
Normal.
Quase feliz.
Saí do terminal carregando uma mochila e uma certeza muito maior que minha experiência.
Eu seria um soldado.
Protegeria pessoas.
Faria a coisa certa.
Naquele tempo, ainda acreditava que saber o que era certo seria a parte fácil.
Fui até um balcão de informações.
— Com licença.
A mulher atrás dele levantou os olhos.
— Pois não?
— Poderia me dizer como chego à Escola de Cadetes do Exército?
Ela me analisou rapidamente.
— Novo candidato?
— Sim.
— Pegue a linha quatro. Desça na Central de Operações.
— Obrigado.
— Boa sorte.
Sorri.
— Não vou precisar.
Ela me observou ir embora.
Hoje imagino o que deve ter pensado.
Provavelmente:
Idiota.
Alguns minutos depois, cheguei à Central de Operações.
A região parecia muito diferente do restante da cidade.
Soldados.
Transportes militares.
Armas.
Drones.
Veículos entrando e saindo constantemente.
Até o ar parecia diferente.
Desci do ônibus e caminhei em direção à entrada.
Não cheguei longe.
Um soldado bloqueou meu caminho.
— Identificação.
Parei.
Ele era alto.
Uniforme camuflado.
Postura rígida.
No peito:
TENENTE CLARK — SEGUNDA DIVISÃO.
— Senhor, meu nome é Dary Dolor.
Ele continuou me encarando.
— E?
— Vim me alistar na E.C.E.
Clark olhou para mim de cima a baixo.
— Dezessete?
— Sim, senhor.
— Parece quinze.
— Tenho dezessete.
— Isso não melhora muito.
Não respondi.
Clark soltou um suspiro.
— Outro herói.
— Senhor?
— Nada.
Virou-se.
— Siga-me.
Acompanhei-o.
A Central era enorme.
Muito maior do que eu imaginava.
Passamos por corredores, hangares, elevadores e setores que desciam vários níveis abaixo do solo.
Depois de alguns minutos, chegamos à sala de registros.
Clark apontou.
— Inscrição ali.
— Obrigado, senhor.
Ele já estava indo embora.
— Tenente!
Parou.
— Sim?
— Algum conselho?
Clark me olhou por alguns segundos.
— Volte para casa.
E foi embora.
Fiquei parado.
— Ótimo conselho...
Entrei.
Havia uma fila considerável.
Jovens mais ou menos da minha idade aguardavam para se registrar.
Alguns conversavam.
Outros pareciam nervosos.
Eu estava quase chegando ao balcão quando o alarme começou.
Uma sirene atravessou todo o complexo.
Luzes vermelhas acenderam.
A conversa morreu imediatamente.
Uma voz feminina surgiu pelos alto-falantes.
— ALERTA DE INVASÃO. ALERTA DE INVASÃO. UNIDADES FIERI PENETRARAM O PERÍMETRO DE RACOom. TODOS OS CIVIS E RECRUTAS DEVEM SER CONDUZIDOS IMEDIATAMENTE ÀS ÁREAS DE SEGURANÇA.
Fiquei imóvel.
Alguém me empurrou.
— Anda!
Começamos a correr.
Soldados surgiam de todos os lados.
Alguns iam em direção às saídas.
Outros guiavam civis para os níveis subterrâneos.
Explosões começaram a ecoar ao longe.
Então mais perto.
Muito mais perto.
Minha coragem de alguns minutos antes desapareceu rapidamente.
Eu ainda não era soldado.
Não sabia usar um Traço em combate.
Não tinha arma.
Não tinha treinamento.
Era apenas um garoto no lugar errado durante uma invasão.
Fomos levados até uma sala de prontidão subterrânea.
As portas blindadas fecharam.
Um soldado ordenou:
— Fiquem calmos. Permaneçam aqui até recebermos autorização.
Ninguém parecia particularmente calmo.
Algumas pessoas choravam.
Outras rezavam.
Eu me afastei da multidão.
Foi quando a vi.
Uma garota estava encolhida em um dos cantos.
Cabelos negros.
Pele parda.
Roupas antigas.
Rasgadas.
Sujas.
Ela mantinha a cabeça entre os joelhos.
Tremia.
Eu me aproximei devagar.
— Ei.
Nada.
— Você está bem?
A garota levantou o rosto.
Havia sujeira sobre sua pele.
Um arranhão profundo próximo à bochecha.
E olhos violetas.
Olhos que pareciam ter passado tempo demais procurando uma saída.
— Não...
Sua voz tremia.
— Não me machuque.
Parei imediatamente.
Levantei as mãos.
— Não vou.
Ela continuou me encarando.
— Eu só queria saber se posso ajudar.
— Você não pode.
— Provavelmente não.
Ela pareceu surpresa com a resposta.
Sentei a uma pequena distância.
— Mas talvez consiga fazer companhia.
Silêncio.
— Meu nome é Dary.
Ela não respondeu.
— Dary Dolor.
— Eu não perguntei.
— Verdade.
Esperei.
Depois de alguns segundos, ela parou de chorar.
— Você não precisa se preocupar comigo.
— Por quê?
— Meu dono vai me encontrar.
Pensei ter escutado errado.
— Seu quê?
Ela percebeu imediatamente o que tinha dito.
Seu corpo ficou tenso.
— Nada.
— Você disse dono.
— Esquece.
— Você não tem família?
O olhar dela mudou.
— Nunca conheci meus pais.
Minha garganta apertou.
— Cresci em uma cela.
Ela passou os braços ao redor das pernas.
— Depois fui vendida.
Não soube o que dizer.
Aos dezessete anos, eu acreditava conhecer o mundo.
Naquela sala descobri que não conhecia absolutamente nada.
— Para quem?
Ela não respondeu.
— Quem é seu dono?
Os olhos começaram a se encher novamente.
— Por favor...
— Ele fez alguma coisa com você?
Foi um erro.
O rosto dela se desfez.
— Não.
Começou a respirar mais rápido.
— Não me faça lembrar.
— Desculpa.
— Por favor...
Ela cobriu os ouvidos.
— Ele vai me encontrar.
— Não vai.
— Vai!
— Ei.
Aproximei-me um pouco.
— Olha para mim.
Ela não conseguiu.
— Você está segura agora.
— Não estou.
— Está.
— Você não sabe.
— Não.
Engoli em seco.
— Mas sei que ninguém aqui vai entregar você.
Ela finalmente me olhou.
— E se ele vier?
Não pensei.
Apenas respondi.
— Então vai precisar passar por mim.
Talvez fosse a coisa mais estúpida que eu poderia ter dito.
Eu não tinha arma.
Não tinha treinamento.
Provavelmente não conseguiria proteger nem a mim mesmo.
Mesmo assim...
Ela parou de tremer um pouco.
— Por quê?
— O quê?
— Por que faria isso?
Olhei para ela.
— Porque ninguém deveria viver com medo de outra pessoa.
Uma lágrima desceu por sua bochecha.
Dessa vez, aproximei-me devagar.
Ela não recuou.
Eu a abracei.
Seu corpo ficou rígido.
Depois...
Senti seus braços ao meu redor.
— Obrigada.
Foi quando vi.
No pescoço.
Um código de barras.
Abaixo dele, pequenas palavras:
PROPRIEDADE DE GOMON.
Meu estômago embrulhou.
Afastei um pouco o rosto.
— Qual é seu nome?
Ela secou as lágrimas.
Demorou antes de responder.
— Susi.
Sorri.
— Prazer, Susi.
Uma explosão fez toda a sala tremer.
Olhei para cima.
— O que foi—
O teto cedeu.
Não houve tempo.
Joguei-me sobre Susi.
Pedras.
Poeira.
Metal.
Dor.
Por alguns segundos, não ouvi absolutamente nada.
Quando consegui abrir os olhos, havia sangue escorrendo pelo meu rosto.
Tirei os destroços de cima de mim.
— Susi?
Ela tossiu.
— Estou...
Respirou.
— Estou bem.
Consegui me levantar.
A sala havia sido destruída.
Pessoas estavam soterradas.
Outras gritavam.
Algumas...
Não se moviam.
Então alguma coisa passou sobre a abertura no teto.
Grande demais.
Olhei para cima.
Escamas.
Asas.
Chifres.
Um corpo gigantesco bloqueava parte do céu.
Fieri.
Eu só conhecia aquelas criaturas por livros e noticiários.
Ao vivo, pareciam ainda piores.
Muito maiores.
Muito mais inteligentes.
E muito mais assustadoras.
Dois guardas que haviam sobrevivido se posicionaram abaixo da abertura.
— Barreira!
Energia surgiu diante deles.
O Fieri abriu a boca.
Eu vi o fogo se formando.
— NÃO!
A rajada atingiu a proteção.
Durante alguns segundos, a barreira resistiu.
Depois rompeu.
Os dois soldados desapareceram entre as chamas.
Susi agarrou meu braço.
Não havia saída.
O Fieri olhou diretamente para nós.
A boca começou a brilhar novamente.
Apertei Susi contra mim.
Eu prometi.
Não sabia como.
Mas havia prometido protegê-la.
Uma luz atravessou o céu.
Branca.
Violenta.
Precisa.
O Fieri foi atingido.
A explosão me obrigou a fechar os olhos.
Quando consegui enxergar novamente...
Ele havia desaparecido.
Não completamente.
Restavam partes queimadas espalhadas pelos destroços.
— Mas...
Uma voz surgiu ao meu lado.
— Você está vivo?
Virei.
Uma pequena garota estava ajoelhada perto de mim.
Parecia...
Uma criança.
Cabelos claros.
Quase dourados.
Olhos rosados.
Uniforme militar.
E uma arma que parecia pesar mais do que ela.
— Você...
Olhei para a cratera.
— Foi você?
— O Fieri?
Ela se levantou.
— Sim.
— Como?
— Atirei nele.
— Eu percebi essa parte.
Ela me olhou como se eu fosse particularmente lento.
Então vi a insígnia.
Meu coração quase parou.
MARECHAL NIGEN
MERY MARLIM
Endireitei imediatamente a postura.
— Senhora!
Ela olhou ao redor.
Corpos.
Destroços.
Feridos.
Depois me observou.
— Você tentou ajudar.
Baixei os olhos.
— Só consegui salvar uma pessoa.
Mery acompanhou meu olhar até Susi.
— Uma pessoa.
— As outras...
— Morreram.
A palavra veio sem suavidade.
Olhei para ela.
— Eu poderia ter feito mais.
— Poderia?
Não respondi.
Mery caminhou alguns passos entre os escombros.
— O que veio fazer em Racoom?
— Me alistar.
— Claro.
Ela soltou um pequeno suspiro.
— Quer ser herói?
— Não.
Ela olhou para mim.
Hesitei.
— Talvez.
— Da Justiça?
Meu corpo ficou rígido.
— Como sabe?
— Está escrito em você.
Olhei para os mortos.
— Se eu tivesse sido mais forte...
— Pare.
A voz dela ficou séria.
— Aprenda isso enquanto ainda é jovem, Dary Dolor.
Ela sabia meu nome.
— Justiça não significa salvar todo mundo.
Franzi a testa.
— Mas eu deveria tentar.
— Deve.
Apontou para Susi.
— Hoje você escolheu protegê-la.
Depois indicou os destroços.
— Enquanto fazia isso, outras pessoas morreram.
Meu peito apertou.
— Então escolhi errado?
— Não.
Mery se aproximou.
— Você escolheu.
Silêncio.
— Essa é a parte que ninguém gosta de ensinar sobre justiça.
Ela olhou diretamente para mim.
— Um dia você terá duas vidas diante de você e braços suficientes para alcançar apenas uma.
Não consegui desviar o olhar.
— E o que eu faço?
— Escolhe.
— Isso não é justiça.
— Exatamente.
Fiquei imóvel.
Mery continuou:
— Justiça é uma ideia.
Olhou ao redor.
— O mundo é muito mais inconveniente.
Minha mão fechou-se.
— Então para que lutar por ela?
Pela primeira vez, Mery sorriu.
— Porque o fato de nunca alcançarmos algo perfeitamente não significa que devamos parar de tentar.
Aquilo ficou comigo.
Ela apontou para Susi.
— Você salvou uma vida hoje.
Depois para mim.
— Amanhã, tente salvar duas.
Caminhou em direção à abertura.
— Depois três.
— Marechal.
Ela parou.
— Como sabia meu nome?
Olhou para mim por cima do ombro.
— Intuição.
— E sobre eu querer entrar para o exército?
— Intuição muito forte.
Saltou.
Simplesmente desapareceu pela cratera.
Fiquei olhando para cima.
— Essa mulher é estranha.
Ouvi uma pequena risada.
Susi.
Virei.
Ela estava sentada.
Machucada.
Exausta.
Mas sorrindo.
Aproximei-me.
— Consegue andar?
— Acho que sim.
Ajudei-a a se levantar.
Ela apoiou um braço sobre meu ombro.
— Você costuma abraçar garotas desconhecidas ou eu tive algum privilégio?
Olhei para ela.
— Você estava chorando.
— Então era pena.
— Era.
— Que romântico.
— Você é sempre assim?
Susi sorriu um pouco mais.
Pela primeira vez...
Um sorriso verdadeiro.
— Infelizmente.
Balancei a cabeça.
— Acho que consigo me acostumar.
Naquela época...
Eu não fazia ideia do quanto.
— Então foi assim?
A voz de Serena trouxe a floresta de volta.
Pisguei.
O passado desapareceu.
Susi caminhava ao nosso lado com o pacote vazio de biscoitos nas mãos.
— Mais ou menos — respondeu.
Olhei para ela.
— Mais ou menos?
— Você deixou algumas partes de fora.
— Quais?
— As interessantes.
— Não havia partes interessantes.
— Isso porque você é péssimo contando histórias.
Serena permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Depois perguntou:
— Gomon ainda existe?
Susi parou de sorrir.
Não respondeu imediatamente.
— Existe.
Foi tudo.
Não perguntei mais.
Serena também não.
Continuamos caminhando.
Após alguns minutos, ela voltou a falar.
— Então Dary salvou você.
Susi balançou a cabeça.
— Não exatamente.
Serena olhou para ela.
— Ele me encontrou.
— Há diferença?
Susi pensou.
— Acho que sim.
Serena voltou-se para mim.
— E hoje considera Susi sua família.
— Sim.
— Apesar de não compartilharem material genético.
— Sim.
Serena ficou novamente em silêncio.
Sabia que alguma pergunta estava chegando.
— O que torna alguém família?
Dessa vez...
Não consegui responder imediatamente.
Susi também ficou quieta.
Olhei para ela.
Quatro anos.
Tínhamos crescido juntos.
Treinado juntos.
Brigado.
Rido.
Chorado.
Sobrevivido.
Ela conhecia coisas sobre mim que eu mesmo preferia esquecer.
E eu conhecia cicatrizes dela que ninguém mais conseguia ver.
— Acho que...
Parei.
— Família é quem fica.
Serena inclinou a cabeça.
— Fica?
— Quando seria mais fácil ir embora.
Susi me observava.
— Mesmo quando você é insuportável — acrescentei.
Ela sorriu.
— Principalmente quando você é insuportável.
Serena olhou para nós dois.
Por alguns segundos, permaneceu imóvel.
Então perguntou:
— E como sabemos quando alguém se tornou família?
Dessa vez foi Susi quem respondeu.
— Acho que não sabemos.
Serena franziu discretamente a testa.
— Isso não faz sentido.
— Eu sei.
Susi sorriu.
— É justamente por isso que funciona.
Serena voltou o olhar para mim.
— Você concorda?
Pensei por alguns segundos.
— Acho que família não é uma decisão que acontece de uma vez.
Continuei andando.
— Você só percebe depois de algum tempo que começou a se preocupar com alguém como se aquela pessoa sempre tivesse feito parte da sua vida.
Serena permaneceu em silêncio.
— Mesmo que pertença a outra raça? — perguntou.
Olhei para ela.
A pergunta não parecia ser sobre Susi.
— Mesmo assim.
Ela abaixou ligeiramente o olhar.
Continuamos caminhando.
O vento atravessou as árvores.
Algumas folhas caíram diante de nós.
Susi passou ao lado de Serena e deu dois pequenos tapas em seu ombro.
— Além disso, você acabou de ser deserdada.
Serena ergueu os olhos.
— Isso deveria me confortar?
— Não.
Susi abriu um sorriso.
— Mas significa que agora pode escolher com quem vai andar.
Serena observou Susi.
Depois olhou para mim.
Não respondeu.
Susi continuou andando como se não tivesse dito nada importante.
Acompanhei-a.
Depois de alguns metros, percebi que Serena ainda estava parada.
Virei.
— Serena?
Ela ergueu os olhos.
— Estou indo.
Veio até nós.
Dessa vez, porém, não caminhou atrás.
Ficou entre nós dois.
Susi percebeu.
Eu também.
Nenhum de nós comentou.
Seguimos assim por mais algum tempo.
O sol já começava a desaparecer entre as copas e uma luz alaranjada atravessava a floresta.
Peguei a bússola.
— Quanto falta?
Serena respondeu imediatamente:
— Pouco.
— Isso não é uma unidade de medida — disse Susi.
Serena olhou para ela.
— Algumas horas.
— Melhorou.
Guardei a bússola.
— Então continuamos até encontrarmos um lugar seguro para passar a noite ou chegarmos à fronteira.
Susi colocou o rifle sobre o ombro.
— Gustam...
Havia algo diferente em sua voz.
— Você já esteve lá? — perguntou Serena.
— Não.
Olhou para mim.
— Mas o senhor guia turístico aqui já esteve.
Serena voltou-se para mim.
— É verdade?
Assenti.
— Algumas vezes.
Lembranças antigas passaram rapidamente pela minha cabeça.
Cores.
Animais.
Árvores que pareciam pertencer a outro mundo.
Minha família.
— Antes da guerra — completei.
— Como era?
Sorri discretamente.
— Bonito.
Serena esperou.
— Só isso?
— Muito bonito.
Susi bufou.
— Excelente descrição.
— Você pediu uma história e reclamou. Agora quer uma palestra sobre turismo?
— Quero detalhes.
— Descubra quando chegarmos.
Serena olhou para a frente.
Por algum motivo, seu rosto pareceu mudar.
Não muito.
Talvez fosse apenas impressão.
Mas havia algo ali.
Expectativa.
Talvez curiosidade.
Talvez esperança.
Continuei olhando para ela.
Horas atrás, aquela mesma Droind acreditava não possuir mais nenhuma função.
Agora estava caminhando conosco para um lugar onde nenhum de nós sabia exatamente o que encontraria.
Talvez Susi estivesse certa.
Talvez algumas coisas não precisassem fazer sentido imediatamente.
Olhei para a estrada à nossa frente.
Gustam estava perto.
E, pela primeira vez desde que deixamos TNH9, eu me permiti acreditar que talvez ainda existisse algum lugar para onde pudéssemos ir.
— Vamos — falei.
Susi caminhou ao meu lado.
Serena permaneceu em silêncio.
Mas desta vez...
olhando para frente.
Comentários
Nenhum comentário ainda. Seja a primeira voz aqui.