Capítulo 230 min

A Marca Negra

2 de 327 de agosto de 2026

CAPÍTULO DOIS

A Marca Negra

Ninguém se moveu.

Nem eu.

Nem Susi.

Nem Kem.

Nem Will.

O homem continuava parado diante de nós, com a base TNH9 queimando atrás de si.

Chamas negras subiam pelas estruturas metálicas sem produzir aquela luz alaranjada comum ao fogo. Pelo contrário. Pareciam devorar a própria claridade ao redor.

E ele apenas observava.

Aquele sorriso permanecia em seu rosto.

Calmo.

Elegante.

Insuportavelmente tranquilo.

Como se centenas de Droinds não estivessem mortos poucos metros abaixo.

Como se toda aquela destruição fosse apenas parte de uma bela paisagem.

O Akuma abriu os braços.

— Ora, meus queridos...

Sua voz carregava uma educação quase exagerada.

— Vocês também não acham que esta é uma vista magnífica?

Virou-se parcialmente e indicou TNH9 com uma das mãos.

Uma torre desmoronou naquele exato momento.

O estrondo atravessou o vale.

O Akuma observou os destroços caírem.

— Sim...

Levou a mão ao queixo.

— Definitivamente daria um belo quadro para minha sala.

Susi apertou o rifle.

Eu consegui ouvir o couro da luva rangendo sob seus dedos.

— Isso não é uma bela vista — respondi.

O Akuma voltou os olhos para mim.

— Não?

— É um massacre.

Seu sorriso aumentou discretamente.

— Questão de perspectiva.

Apontei minha arma.

— O que está fazendo aqui, demônio?

Ele levou a mão ao peito.

Pareceu genuinamente ofendido.

— Demônio?

Franziu a testa.

— Meu caro, que maneira desagradável de iniciar uma conversa.

— É uma palavra adequada para você e sua raça.

O sorriso desapareceu.

Por apenas um instante.

Mas foi suficiente.

— Vocês são monstros sem coração — continuei.

Ele me encarou.

Então soltou uma pequena gargalhada.

— Monstros...

Passou a língua discretamente pelos dentes.

— Curiosa escolha de palavra.

Deu um passo em nossa direção.

Meu corpo inteiro se tensionou.

— Creio que esteja ligeiramente enganado, tenente.

Parei.

Ele sabia minha patente.

— Minha alma é o completo oposto do Branco — continuou. — E jamais tive a pretensão de dizer que minha raça é pacífica.

Mais um passo.

— Mas chamar os Akumas de monstros?

Seus olhos encontraram os meus.

Negros.

Completamente negros.

— Isso é quase ofensivo aos verdadeiros Monstros.

Susi avançou meio passo.

— Chega dessa conversa.

Ele desviou o olhar para ela.

— Ora.

— O que você está fazendo tão longe do território Akuma?

Ela inclinou ligeiramente a cabeça.

— Por acaso se perdeu do seu ninho de pássaros negros?

Kem olhou para ela como se tivesse enlouquecido.

Will também.

Eu quase fiz o mesmo.

Susi abriu um pequeno sorriso.

Ele a observou por alguns segundos.

Então...

Riu.

— Gostei de você.

— O sentimento não é recíproco.

— Uma pena.

Ele ajeitou uma das mangas do terno.

— Mas, respondendo à sua pergunta, senhorita... não estou perdido.

Olhou novamente para TNH9.

— Estou apenas procurando diversão.

Susi perdeu o sorriso.

— Diversão?

O vento soprou entre nós.

— Você chama isso de diversão?

Apontou para os corpos espalhados pela base.

— Matar dezenas de seres vivos?

O rosto do Akuma mudou.

Não muito.

Mas mudou.

O sorriso sumiu.

Seus olhos negros ficaram ainda mais vazios.

— Nigen...

Sua voz ficou baixa.

— Hipócritas como sempre.

Susi ergueu uma sobrancelha.

— O quê?

Ele abriu os braços novamente.

— Diga-me, senhorita. Vocês vieram até esta base entregar flores?

Silêncio.

— Vieram conversar?

Ninguém respondeu.

— Talvez pedir gentilmente para que os Droinds desligassem seus projetores?

Sua voz ficou mais agressiva.

— Não.

Ele apontou para nossas armas.

— Vocês vieram destruí-los.

O silêncio respondeu por nós.

O Akuma sorriu novamente.

— Exatamente.

Olhou para mim.

— O silêncio de vocês diz tudo.

Não respondi.

Porque havia uma parte de mim que odiava admitir...

Mas ele tinha razão.

Nossa missão era destruir aquela base.

Se tivéssemos conseguido completar o objetivo, os mísseis Nigen teriam feito exatamente aquilo que as chamas negras haviam feito.

Talvez com outra cor.

Mas o resultado seria o mesmo.

Corpos.

— Vocês adoram se imaginar melhores que todos — continuou o Akuma. — Mais civilizados. Mais inteligentes. Mais justos.

A última palavra pareceu proposital.

Seus olhos pousaram sobre mim.

— Mas basta uma guerra começar...

O sorriso voltou.

— ...e todos descobrimos como as raças inteligentes são parecidas.

Apertei os dentes.

— Existe uma diferença.

— Existe?

— Nós não matamos por diversão.

Ele inclinou a cabeça.

— Ah...

O sorriso dele desapareceu novamente.

— Certo e errado.

Olhou para as próprias mãos.

— Justiça e injustiça.

Depois voltou os olhos para mim.

— Conceitos fascinantes.

Deu mais um passo.

— E completamente relativos.

Havia alguma coisa errada naquele homem.

Não apenas por ser um Akuma.

Era outra coisa.

Uma sensação.

Minha alma gritava para que eu saísse dali.

Aqueles olhos negros pareciam...

Vazios.

Não.

Pior.

Pareciam esconder alguma coisa.

Alguma coisa imensa.

Alguma coisa que não deveria existir.

“Nós não vamos sair daqui.”

O pensamento surgiu sem que eu pudesse impedir.

O Akuma levou a mão ao bolso interno do terno.

Imediatamente ergui a arma.

Susi fez o mesmo.

Kem e Will nos acompanharam.

— Calma.

Ele retirou apenas um pequeno relógio.

Antigo.

Metálico.

Com uma corrente prateada.

Abriu a tampa.

Observou os ponteiros.

— Ah.

Fez uma expressão decepcionada.

— Que inconveniente.

— O quê? — perguntei.

— Estou atrasado.

Fechou o relógio.

— Tenho uma reunião.

Kem piscou.

Susi me lançou um olhar.

Aquilo parecia absurdo demais até para aquela situação.

Ele guardou o relógio.

— Entretanto...

O sorriso voltou.

— Tenho certeza de que meu sócio não ficará tão incomodado com meu atraso se eu levar um pequeno presente.

Seus olhos passaram por nós.

Primeiro Will.

Depois Kem.

Susi.

Por último, eu.

— Quatro almas frescas.

Kem empalideceu.

— Você...

Sua voz saiu trêmula.

— Você não pode simplesmente tomar nossas almas.

O Akuma olhou para ele.

— Não?

— Se fizer isso...

Kem respirou com dificuldade.

— Nunca encontraremos a paz.

O Akuma ficou alguns segundos em silêncio.

Então começou a rir.

Não era aquela pequena risada educada de antes.

Era alta.

Cruel.

Ecoou por toda a área.

— Paz?

Kem recuou.

— Meu jovem...

Ele abriu um sorriso quase piedoso.

— Quem disse que isso é problema meu?

Seus olhos ficaram frios.

— Eu não dou a mínima para vocês.

A aura ao redor dele pareceu crescer.

— Vermes.

Minha mão apertou a arma.

— E, para ser completamente sincero...

O Akuma inclinou a cabeça.

— Suas almas parecem tão fracas que talvez nem valham o esforço.

Susi avançou.

— Quem você pensa que é?

— Susi...

— Não, Dary.

Ela apontou o rifle diretamente para ele.

— Quem diabos você pensa que é para ficar falando conosco desse jeito?

O Akuma demonstrou completo desinteresse.

Susi continuou:

— Quem garante que eu não consigo quebrar essa sua cara?

Silêncio.

Ele olhou para ela.

Depois para mim.

Então ajeitou o paletó.

— Ah.

Seu sorriso se tornou muito mais largo.

— Perdão.

Fez uma pequena reverência.

— Onde estão meus modos?

Ergueu novamente o rosto.

— Imperador Killer.

Meu coração falhou uma batida.

Susi permaneceu imóvel.

Kem não pareceu compreender imediatamente.

Will também não.

Mas eu conhecia aquele nome.

Todo Nigen conhecia.

Histórias.

Relatórios militares.

Corpos.

Cidades.

Rumores tão absurdos que pareciam criados para assustar crianças.

“Imperador Killer.”

Meu sangue ficou gelado.

O Akuma pareceu perceber.

— Ah...

Seus olhos se fixaram nos meus.

— Você me conhece.

Não respondi.

— Excelente.

Abriu os braços.

— Então poupamos apresentações desnecessárias.

Deu alguns passos para trás.

— Muito bem.

Estalou o pescoço.

— Já conversamos bastante.

Seu sorriso se tornou animado.

— Que tal descobrirmos se os famosos Nigen são tão poderosos quanto dizem?

Eu sabia exatamente o que precisava fazer.

Recuar.

Não havia vergonha nisso.

Não contra ele.

— Susi...

Mas ela já tinha se movido.

— Sua desgraça!

— SUSI!

Ela prendeu o rifle nas costas e correu.

— Ah...

Killer abriu um sorriso.

— Começamos.

Susi atacou primeiro com um soco.

Ele desviou.

Outro.

Desviou novamente.

Uma cotovelada.

Nada.

Um chute lateral.

Killer moveu o corpo apenas alguns centímetros.

Susi continuou.

Cada golpe parecia rápido demais para meus olhos acompanharem.

Mas Killer...

Parecia entediado.

As mãos permaneciam atrás das costas.

Ele sequer estava lutando.

Apenas desviava.

— Pare de brincar comigo!

Susi girou o corpo e atacou novamente.

Dessa vez encontrou uma abertura.

Seu punho avançou diretamente contra o rosto dele.

— Peguei você!

Killer levantou uma das mãos.

Segurou o punho dela.

O impacto produziu uma pequena onda de ar.

Ele não se moveu.

Nem um centímetro.

Susi arregalou os olhos.

— O quê...?

Killer puxou seu braço.

Girou.

E em poucos segundos colocou os dois em uma postura semelhante à de uma dança.

Uma mão segurando a dela.

A outra apoiada em suas costas.

— Ora, senhorita...

Susi tentou se soltar.

Nada.

— Se queria dançar comigo...

Ele aproximou o rosto do dela.

— Bastava pedir.

— Vai se ferrar.

Ergui a arma.

— Solte-a.

Apontei para a cabeça dele.

Killer sorriu.

Então colocou Susi entre nós.

— Atire.

Meu dedo congelou sobre o gatilho.

— Vamos, tenente.

Susi tentou acertá-lo com o cotovelo.

Ele segurou também.

— Confia na sua pontaria?

— Dary!

— Estou pensando!

— Pensa mais rápido!

Killer riu.

— Adorável.

Então Susi parou de lutar.

Seu rosto mudou.

Um sorriso apareceu.

— Sabe...

Killer ergueu uma sobrancelha.

— Eu também tenho meus truques.

— Ah?

Susi abriu um pouco o uniforme.

— Py.

Durante um segundo, nada aconteceu.

Então uma pequena criatura peluda saltou de dentro da roupa dela.

Um hamster.

Killer piscou.

— O quê?

Py enterrou os dentes na mão dele.

— Agh!

Killer soltou Susi.

Ela rolou pelo chão e imediatamente se afastou.

O Akuma olhou para a mão.

Havia sangue.

Um corte surpreendentemente profundo.

Silêncio.

Todos nós encaramos Py.

O pequeno hamster voltou correndo para Susi.

Killer olhou para a própria mão.

Depois para o hamster.

Depois novamente para a mão.

— Interessante...

Susi pegou Py e o colocou sobre o ombro.

— Bom garoto.

Killer sorriu.

— Que ratinho atrevido.

— Hamster.

— Tanto faz.

Ele limpou o sangue.

— Acho que vou presenteá-lo aos meus cães.

Susi abraçou Py.

— Você tenta e eu arranco seus chifres.

Will levantou a arma.

Disparou.

Killer virou a cabeça.

E pegou a bala.

No ar.

Entre dois dedos.

O mundo pareceu parar.

Will ficou imóvel.

Killer observou o projétil.

— Sério?

Soltou a bala no chão.

— Vocês realmente acreditam que pedaços de metal podem me ferir?

Sorriu.

— Patético.

Eu não esperei.

Baixei a arma e saquei a baioneta.

Corri.

O primeiro golpe foi vertical.

Ele desviou.

Girei.

Ataque lateral.

Nada.

Tentei perfurar seu abdômen.

Killer simplesmente moveu o quadril.

Era como tentar atingir uma sombra.

— Isso é tudo? — perguntou.

Continuei atacando.

Mais rápido.

Mais forte.

Raiva tomando cada movimento.

— Fique parado!

— Mas aí perderia toda a graça.

Ataquei novamente.

Dessa vez ele sequer desviou.

Estendeu a mão.

Segurou a lâmina.

Parei.

Minha baioneta estava presa entre seus dedos.

— Veja.

Apertou a lâmina.

— Nem uma gota.

Torção.

CRACK.

A baioneta partiu.

Killer deixou o pedaço cair.

Recuo.

Um passo.

Dois.

Três.

Precisava de distância.

— Vocês são realmente inferiores ao que imaginei.

Ele olhou para nossos olhos.

— Nem sequer conseguem usar seus Traços adequadamente diante de mim.

Um disparo passou ao lado do meu rosto.

Acertou Killer no ombro.

Dessa vez...

Ele recuou.

Muito pouco.

Mas recuou.

Uma pequena queimadura surgiu em sua pele.

Esfera laranja.

Audácia.

Will.

— Ah.

Killer examinou o ferimento.

Will manteve a arma apontada.

Seus olhos brilhavam em laranja.

— Finalmente.

Killer sorriu.

— Alguém resolveu pensar.

Ergueu a mão direita.

— Vamos descobrir se sua alma também sabe resistir.

Uma fumaça negra surgiu entre seus dedos.

Não.

Não era fumaça.

Era fogo.

Chamas negras.

— Will! — gritei.

Killer abriu a mão.

— Chamas Negras.

As chamas dispararam.

Will saltou para o lado.

Elas mudaram de direção.

— O quê?!

Ele correu.

O fogo o perseguiu.

Will passou por uma árvore.

As chamas contornaram o tronco.

— Elas estão seguindo você! — gritou Susi.

— EU PERCEBI!

Will correu diretamente contra outra árvore.

— Will!

No último instante, apoiou um dos pés no tronco e realizou um salto para trás.

As chamas atingiram a árvore.

Não houve explosão.

Foi pior.

O tronco simplesmente...

Desapareceu.

Cinzas negras caíram onde segundos antes havia uma árvore gigantesca.

Will atingiu o chão.

Respirava desesperadamente.

— Isso...

Olhou para as cinzas.

— Isso teria me matado.

— Corre! — gritou Kem.

Will virou.

Mais fogo.

Não havia tempo.

Ele ergueu os braços.

Kem surgiu na frente.

— NÃO!

Seus olhos se acenderam em verde-jade.

— BARREIRA PURA!

Uma barreira verde explodiu diante dos dois.

As chamas colidiram contra ela.

O impacto fez Kem deslizar vários centímetros para trás.

— Aguenta!

— Estou tentando!

Killer observou aquilo.

Parecia sinceramente impressionado.

— Ora...

Caminhou devagar.

— Veja só.

Kem gritou enquanto segurava a barreira.

— Você possui uma alma relativamente forte.

Killer parou diante deles.

— Relativamente.

Kem ergueu o rosto.

— Vai para o inferno.

Killer abriu um sorriso.

— Eventualmente.

Levantou um dedo.

— Mas você primeiro.

Uma substância escura surgiu diante de sua mão.

Parecia líquido.

Mas se movia como se estivesse viva.

— Corrupção.

A massa negra foi lançada contra a barreira.

No instante em que tocou a energia verde...

A cor começou a mudar.

— O que está acontecendo?! — Will gritou.

O negro se espalhava.

Devagar.

Como uma doença.

Verde.

Cinza.

Negro.

— Kem! DESATIVE!

— Eu não consigo!

O último ponto verde desapareceu.

Killer sumiu.

Não.

Ele se moveu.

Rápido demais.

Num instante estava a vários metros.

No seguinte...

Diante deles.

A barreira negra se partiu com um único golpe.

— KEM!

Vi apenas o brilho de uma lâmina.

Killer havia retirado uma pequena faca do bolso.

Enterrou-a no peito de Kem.

Os olhos dele se arregalaram.

— Não...

Killer puxou a faca.

Kem cambaleou.

Will ergueu sua arma.

Killer girou.

A lâmina deixou seus dedos.

Não consegui sequer gritar.

A faca atravessou o ar.

E atingiu Will.

Ele caiu.

Imóvel.

O mundo ficou silencioso.

— Não...

Comecei a correr.

— NÃO!

Kem caiu de joelhos.

— KEM!

Cheguei antes que seu corpo atingisse completamente o chão.

Segurei-o.

Sangue escorria entre meus dedos.

Muito.

— Olha para mim.

Ele tossiu.

— Kem, olha para mim!

Seus olhos verdes tentaram encontrar os meus.

— Senhor...

— Fique acordado.

Pressionei o ferimento.

— Vai ficar tudo bem.

Mentira.

Sabíamos.

Nós dois.

— Me desculpe...

— Não fala.

— Eu não fui forte...

— Cala a boca!

Minha voz falhou.

— Você não vai morrer!

Kem sorriu fracamente.

— Não fui forte o suficiente para proteger...

Seus olhos procuraram Will.

Encontraram o corpo.

— ...ele.

Apertei ainda mais o ferimento.

— Você protegeu todos nós.

— Eu falhei...

— NÃO.

Olhei diretamente para ele.

— Você não falhou.

A respiração de Kem estava ficando cada vez mais fraca.

— Por favor...

Minha voz tremia.

— Sua família está esperando por você.

Ele sorriu.

Um sorriso triste.

— Não.

Fechou os olhos por um instante.

— Minha família morreu há pouco.

Parei.

Kem voltou a me olhar.

— Shini...

Meu peito apertou.

— Shini era minha família.

Uma lágrima escorreu pelo rosto dele.

Esverdeada.

Brilhando fracamente.

— Agora ele está me esperando na praia.

— Kem...

— Eu queria ver o mundo em paz novamente.

Sua respiração falhou.

— Era meu sonho.

Apertei sua mão.

— Você ainda vai ver.

Ele negou.

— Não desta vez.

Mais uma lágrima.

— Desculpe, senhor.

Balancei a cabeça.

— Não há nada para perdoar.

— Eu falhei na minha missão.

— Não.

Aproximei-me dele.

— Você cumpriu sua missão.

Kem me olhou.

— Protegeu seus companheiros até o fim.

Engoli em seco.

— Você foi um bom soldado.

Ele respirou.

— Obrigado...

Sua voz quase desapareceu.

Apertei a mão dele.

— Descanse.

Os olhos de Kem começaram a perder o brilho.

— Eu vou trazer a paz de volta a Destiny.

Não sabia se conseguiria.

Não sabia sequer se sobreviveria aos próximos minutos.

Mas disse mesmo assim.

— Eu prometo.

Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

— Então...

A voz falhou.

— ...estarei esperando.

A chama verde de seus olhos desapareceu.

Cinza.

A mão dele ficou pesada na minha.

— Kem?

Nada.

— Kem...

Nada.

Baixei a cabeça.

Não consegui impedir as lágrimas.

Shini.

Will.

Kem.

Todos mortos.

Minha unidade estava desaparecendo diante de mim.

— Comovente.

Aquela voz.

Levantei lentamente o rosto.

Killer estava ao meu lado.

Observando Kem.

— Pobres criaturas.

Meu corpo começou a tremer.

— Que fim trágico.

Ele suspirou.

— Entretanto...

Olhou para os dois corpos.

— Respeito a coragem deles.

Seu sorriso desapareceu.

— Não tomarei suas almas.

Passei a mão pelo rosto.

Killer continuou:

— Deixarei que descansem.

Levantei.

Muito devagar.

Fui até Will.

A faca ainda estava presa nele.

Segurei o cabo.

Puxei.

— Dary... — Susi chamou.

Olhei para Will.

— Desculpe.

Minha mão apertou a arma.

— Eu deveria ter protegido vocês.

Fechei seus olhos.

— Espero que algum dia possam me perdoar.

Virei.

Killer estava me observando.

Apontei a faca para ele.

— Eu vou matar você.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Como?

Meus olhos começaram a arder.

Aquela sensação.

Outra vez.

O amarelo tomou minha visão.

Justiça.

— Eu juro pela minha alma...

Dei um passo.

— Eu vou matar você.

Killer observou meus olhos.

Pela primeira vez desde que aparecera...

Seu sorriso desapareceu completamente.

Uma pequena expressão de curiosidade tomou seu rosto.

Mas durou pouco.

— Interessante.

Susi correu até mim.

— Dary.

Não desviei os olhos.

— Dary, escuta.

— Não.

— Nós não temos chance!

— Eu sei.

Ela segurou meu braço.

— Então por que está fazendo isso?!

Killer observava.

Esperava minha resposta.

Olhei para Kem.

Depois Will.

— Porque se ele continuar vivo...

Voltei os olhos para Killer.

— Vai matar mais pessoas.

— Dary...

— Não posso permitir.

A energia amarela parecia queimar dentro de mim.

— Ele precisa responder pelo que fez.

Killer sorriu.

— Ah.

Apontei a faca.

— Justiça.

Seu sorriso cresceu.

— Agora você ficou interessante.

Então suspirou.

— Entretanto...

Olhou novamente para o relógio.

— Minha paciência terminou.

Guardou-o.

O ar mudou.

A aura ao redor dele explodiu.

Susi perdeu o equilíbrio por um instante.

Eu quase caí.

— Sumam da minha frente.

Killer levantou as duas mãos.

As chamas começaram a nascer.

— Vermes.

Meu coração disparou.

— Susi...

Ela olhou para mim.

— Corre.

Killer abriu os braços.

— Chamas Negras.

O mundo ficou negro.

As chamas vieram.

Não conseguiríamos escapar.

Eu sabia.

Susi sabia.

Então fiz a única coisa que podia.

Agarrei-a.

Girei meu corpo.

Tentei protegê-la.

Fechei os olhos.

Esperei o fogo.

Mas ele nunca chegou.

BOOOOM!

Alguma coisa caiu diante de nós.

O impacto lançou terra e pedras para todos os lados.

Uma voz feminina ecoou em meio à poeira.

Metálica.

Calma.

— Absorção.

As chamas negras atingiram aquela figura.

E desapareceram.

Não.

Foram absorvidas.

Levantei o rosto.

A poeira começou a baixar.

Cabelos negros.

Pele branca.

Circuitos.

Meus olhos se arregalaram.

— Você...

Susi também reconheceu.

— Não pode ser.

Era ela.

A Droind da clareira.

Mas estava diferente.

Completamente restaurada.

Nenhuma das marcas do combate permanecia em seu corpo.

Nenhum dano.

Nenhuma peça quebrada.

Ela ergueu lentamente os dois braços na direção de Killer.

As linhas de seu corpo começaram a brilhar.

— Liberação.

As mesmas chamas negras que haviam desaparecido segundos antes explodiram de suas mãos.

Killer foi engolido.

— Acertou! — Susi gritou.

O fogo desapareceu.

Killer continuava parado.

O terno sequer estava queimado.

Ele olhou para o próprio peito.

Depois para a Droind.

E gargalhou.

— Essa...

Bateu palmas lentamente.

— Eu realmente não esperava.

A Droind permaneceu em silêncio.

— Uma Droind protegendo Nigen.

Nada.

Ela apenas o encarava.

Killer pareceu esperar uma resposta.

Não recebeu.

— Fascinante.

Retirou novamente o relógio.

Abriu.

Seu sorriso sumiu.

— Infelizmente...

Fechou-o.

— Meu tempo acabou.

Fiquei imóvel.

Ele realmente estava preocupado com uma reunião.

Depois de tudo aquilo.

— Resolveremos nosso pequeno conflito em outra ocasião.

Começou a se virar.

Então parou.

— Mas antes...

Olhou para nós por cima do ombro.

— Um presente.

Estalou os dedos.

Dor.

Não.

Calor.

Meu pescoço começou a queimar.

Levei a mão imediatamente ao local.

— Ah!

Susi fez o mesmo.

A Droind também tocou o próprio pescoço.

— O que você fez?!

Killer sorriu.

— Nada demais.

A sensação aumentou.

Parecia haver metal derretido pressionado contra minha pele.

Mas estranhamente...

Não doía.

Era apenas uma sensação de calor profundo.

Como alguma coisa sendo gravada em mim.

— Apenas uma lembrança.

Killer apontou para nós.

— Um dia...

Seu sorriso desapareceu.

— Vocês lutarão ao meu lado.

Meu sangue gelou.

— Nunca.

— Todos dizem isso.

Ele estalou os dedos novamente.

Um círculo azul surgiu ao seu lado.

Energia girava em seu interior, formando uma abertura com quase dois metros de altura.

Um portal.

Killer entrou.

Antes de desaparecer, virou-se.

Fez uma pequena reverência.

— Até outro dia.

O portal fechou.

Silêncio.

Ficamos parados.

Apenas o vento.

Apenas as chamas negras destruindo os últimos restos de TNH9.

Levei novamente a mão ao pescoço.

Havia alguma coisa ali.

Passei os dedos.

Relevo.

— Dary...

Olhei para Susi.

Ela estava pálida.

— Você também está sentindo?

Assenti.

— Sim.

Ela afastou o cabelo.

No lado de seu pescoço havia uma marca.

Negra.

Escura demais.

Parecia ter sido esculpida diretamente sobre sua pele.

— Merda.

Susi tocou.

— O que é isso?

Eu sabia.

Queria estar errado.

Mas sabia.

— Uma Marca Negra.

Ela parou.

Olhou para mim.

— Você está brincando.

— Queria estar.

O rosto dela perdeu a cor.

A Marca Negra.

Não era apenas uma cicatriz.

Era uma sentença.

Uma marca associada aos Akumas.

À corrupção.

Às almas tocadas pela Malevolência.

Se alguém de nosso exército descobrisse...

Não haveria investigação.

Não haveria julgamento.

Provavelmente nem perguntas.

Seríamos executados.

Susi soltou uma risada nervosa.

— Fantástico.

Passou as mãos pelo cabelo.

— Saímos em uma missão suicida, perdemos praticamente todo mundo, encontramos um imperador Akuma e agora somos condenados à morte pelo nosso próprio povo.

Olhou para mim.

— Excelente dia.

Eu não tinha forças nem para rir.

Foi quando percebemos que não estávamos sozinhos.

A Droind continuava diante de nós.

Susi levantou o rifle imediatamente.

— Ah, ótimo.

— Espera.

— Essa não é a robô da clareira?

Olhei melhor.

— É.

Ela estava de costas.

Lentamente, virou-se.

Seu rosto permanecia quase inexpressivo.

Mas havia alguma coisa diferente.

Não sabia explicar.

Curiosidade, talvez.

— Por que você está aqui? — perguntei.

A voz dela respondeu.

Levemente metálica.

— Vim ajudá-lo.

— Por quê?

— Para retribuir o favor.

Olhei para ela.

Na clareira, eu havia impedido que um Driadale a matasse.

Agora...

Ela havia acabado de impedir que Killer nos transformasse em cinzas.

— Estamos quites, então — falei.

Ela não demonstrou reação.

Susi deu uma volta ao redor dela.

— Espera.

Aproximou o rosto.

— Você estava praticamente desmontada.

A Droind acompanhou seu movimento com os olhos.

— Como ficou inteira de novo?

— Há uma instalação de pesquisa Droind nesta floresta. Existem peças de reposição e equipamentos de manutenção no local.

Os olhos de Susi brilharam.

Eu conhecia aquele olhar.

E não gostava dele.

— Peças?

— Sim.

— Que tipo?

— Diversos modelos.

Susi abriu um sorriso.

— E onde exatamente fica essa instalação?

A Droind olhou para ela.

— Se você entrar, morrerá.

O sorriso desapareceu.

— Ah.

Silêncio.

— Que pena.

Susi continuou observando a Droind.

Então aquele sorriso voltou.

Pior.

— Bom...

Olhou para mim.

— Dary.

— Não.

— Nem falei nada.

— Conheço essa cara.

— Que cara?

— A cara de quando você vai sugerir alguma idiotice.

Ela apontou para a Droind.

— Podemos desmontá-la.

Fechei os olhos.

— Susi.

— Pensa comigo.

— Não.

— Peças Droind são raríssimas.

— Susi.

— Eu poderia aproveitar os circuitos, os estabilizadores, talvez até descobrir como funciona o sistema de—

— Não.

Ela cruzou os braços.

— Você é muito fechado para novas ideias.

A Droind interrompeu.

— Tudo bem.

Nós dois olhamos para ela.

— O quê? — perguntei.

Ela continuou:

— Ela pode utilizar minhas peças.

Susi sorriu.

— Está vendo?

— Não!

Olhei para a Droind.

— Por que você permitiria isso?

Ela abaixou ligeiramente o rosto.

— Não possuo mais função.

Aquelas palavras me incomodaram.

Muito.

— Como assim?

— Não sou mais necessária.

— Você pertence a uma raça inteira. Pode voltar. Pode defender seu povo.

Silêncio.

Pela primeira vez...

Seu rosto mudou.

Quase nada.

Mas eu percebi.

Tristeza.

— Não posso.

Susi também percebeu.

— Por quê?

A Droind demorou alguns segundos.

— Fui deserdada.

Franzi a testa.

— Deserdada?

— Expulsa.

Susi parou de brincar.

— Por que fariam isso?

A Droind olhou diretamente para mim.

— Porque fiz uma escolha.

— Que escolha?

— Salvar vocês.

Ninguém respondeu.

O vento passou entre as árvores.

— Droinds não podem auxiliar inimigos durante conflito.

Ela baixou o olhar.

— Minha ação foi considerada traição.

Meu peito apertou.

Ela havia perdido tudo.

Por nossa causa.

Susi coçou a nuca.

— Então...

Parecia desconfortável.

— Você realmente não tem para onde voltar?

A Droind negou lentamente.

Susi fez uma expressão pensativa.

— Nesse caso...

Olhei para ela.

— Não.

— Dary!

— Não vai desmontá-la.

— Mas ela deixou!

A Droind confirmou:

— Autorizo.

Susi imediatamente se animou.

— Ótimo. Podemos começar pela fonte de energia.

Ela deu um passo.

Entrei entre as duas.

— Não.

Susi parou.

— Qual é seu problema?

— Ela está literalmente dizendo que não vê motivo para continuar existindo e sua primeira ideia é aproveitar as peças?

— Quando você fala desse jeito parece ruim.

— Porque é ruim!

Susi cruzou os braços.

— Ela é uma máquina.

Olhei para a Droind.

Ela não reagiu.

Aquilo tornava tudo ainda pior.

— Não.

Susi franziu a testa.

— Não?

— Ela é um ser vivo.

A Droind ergueu lentamente o rosto.

— Dary...

— Você ouviu o que ela disse.

Olhei para Susi.

— Ela tomou uma decisão.

Apontei para a Droind.

— Escolheu nos salvar sabendo que haveria consequências.

Olhei novamente para ela.

— Uma ferramenta não faz isso.

Silêncio.

— Uma coisa sem vida não abandona tudo em que acredita por alguém.

Susi desviou os olhos.

— Está bem.

Suspirou.

— Não vou desmontá-la.

A Droind me observava.

Havia algo estranho em seus olhos.

Talvez gratidão.

Talvez eu estivesse apenas começando a enxergar coisas que sempre estiveram ali.

Susi apontou para a própria Marca Negra.

— Mas isso ainda deixa um pequeno problema.

— Eu sei.

— Pequeno problema chamado “nosso exército vai cortar nossas cabeças”.

A Droind olhou para a marca.

— Posso ajudá-los.

— Como?

— Conheço um lugar.

Olhei para ela.

— E por que deveríamos confiar em você?

Ela ficou imóvel.

— Dary... — Susi começou.

— Não.

Mantive os olhos sobre a Droind.

— Ela nos ajudou. Sou grato por isso.

Apertei a faca que ainda segurava.

— Mas até poucas horas atrás estávamos tentando nos matar.

A Droind caminhou até mim.

Um passo.

Outro.

Parou a poucos centímetros.

Então...

Seu peito se abriu.

Recuo imediato.

— O que está fazendo?

Placas brancas deslizaram para os lados.

No centro havia uma luz.

Uma esfera.

Pequena.

Perfeita.

Uma chama azul-clara dançava ao redor dela.

Fiquei imóvel.

Centelha.

Eu já tinha ouvido falar.

Nunca tinha visto uma.

— Se não confia em mim...

Ela segurou minha mão.

Colocou o cabo da faca entre meus dedos.

Então guiou a lâmina até a abertura em seu peito.

A ponta ficou a poucos centímetros da esfera.

— ...perfure minha Centelha.

— O quê?

Susi também ficou séria.

— Você enlouqueceu?

A Droind continuou olhando para mim.

— Se eu tentar atacá-los, destrua-a.

Não movi a mão.

A Centelha.

Para um Droind, não era apenas uma fonte de energia.

Era muito mais.

Era onde sua essência permanecia armazenada.

Memórias.

Informações.

Consciência.

Alma.

Destruí-la significava morte definitiva.

Observei a esfera.

Uma chama azul-clara envolvia seu núcleo.

Conhecia as cores.

Todo mundo conhecia.

Audácia queimava em laranja.

Sagacidade, roxo.

Determinação, vermelho.

Benevolência, verde.

Justílico, amarelo.

Serenidade, azul-claro.

Perseverança, azul-marinho.

Temor, rosa.

Malevolência, preto.

E as almas dos Monstros...

Cinza.

A chama diante de mim era azul-clara.

Serenidade.

Olhei para seu rosto.

Calmo.

Mesmo com uma faca apontada para sua própria alma.

Agora fazia sentido.

— E então? — perguntou.

Sua voz continuava tranquila.

— Confia em mim?

Olhei para a Centelha.

Depois para ela.

Baixei a faca.

— Vou lhe dar uma chance.

O compartimento se fechou.

Susi soltou o ar.

— Ainda bem.

Olhei para ela.

— Você estava preocupada?

— Claro.

— Com ela?

— Com a faca.

Balancei a cabeça.

— E onde fica esse lugar? — perguntei.

A Droind respondeu sem hesitar:

— Gustam.

Susi ficou em silêncio.

Eu também.

— Gustam? — repeti.

— Sim.

Pensei.

Não era uma escolha absurda.

Na verdade...

Talvez fosse nossa melhor alternativa.

Gustam era a capital dos Monstros.

Uma das poucas raças cuja divisão interna era tão marcante que praticamente funcionava como dois povos dentro do mesmo território.

Mutantes.

Seres de origem Nigen que carregavam características animais.

E os Perfeitos.

Animais dotados de inteligência, consciência e capacidade de viver em sociedade.

Antes da guerra, Gustam mantinha relações relativamente pacíficas com as demais raças.

Mas havia um detalhe.

Sangue.

Era uma de suas principais fontes nutricionais.

Antes do conflito, acordos permitiam que cidadãos de diferentes raças doassem regularmente pequenas quantidades de sangue.

Um litro por mês.

Era suficiente para manter o abastecimento.

Depois que a guerra começou...

As rotas foram cortadas.

As doações terminaram.

E eu não fazia ideia do que havia acontecido com Gustam desde então.

“Será que estão passando fome?”

Pior.

“O que alguém capaz de beber sangue faz quando começa a passar fome?”

Susi percebeu minha expressão.

— Você está pensando na mesma coisa que eu?

— Provavelmente.

— Sangue?

— Sangue.

Ela fez uma careta.

— Maravilha.

Olhei novamente para a Droind.

— É realmente seguro?

— Comparado às alternativas?

Ela olhou para TNH9.

Depois para os corpos de Kem e Will.

— Sim.

Não gostei da resposta.

Mas era verdadeira.

— Certo.

Guardei a faca.

— Gustam.

Susi suspirou.

— Nunca pensei que ficaria feliz em viajar voluntariamente para um lugar onde talvez queiram me beber.

— Pense positivo.

— Qual seria a parte positiva?

— Ainda não pensei.

Ela me mostrou o dedo do meio.

Olhei para a Droind.

— Antes de irmos...

Ela me encarou.

— Qual é seu nome?

— T167.

Susi arregalou os olhos.

— Não.

A Droind olhou para ela.

— Esse é meu registro.

— Exatamente.

Susi colocou as mãos na cintura.

— Isso não é nome.

— É minha identificação.

— É um código de produto.

A Droind ficou em silêncio.

Susi olhou para mim.

— Dary.

— O quê?

— Não podemos viajar com alguém chamada T167.

— Por quê?

— Porque parece personagem de ficção científica barata.

Olhei para a Droind.

Depois para Susi.

— Nós estamos literalmente conversando com uma androide no meio de uma guerra entre raças depois de sermos amaldiçoados por um demônio.

— Akuma.

— Tanto faz.

Susi apontou para mim.

— Justamente por isso precisamos estabelecer limites.

A Droind pareceu genuinamente confusa.

— Não necessito de outro nome.

— Precisa, sim.

— Não.

— Sim.

— Não.

— Por favor.

A Droind ficou em silêncio.

Susi aproximou o rosto.

— Por favor.

Nada.

— Por favor.

— Susi...

— Por favor.

— Pare.

— Só quando aceitar.

A Droind olhou para mim.

Eu dei de ombros.

— Ela realmente vai continuar.

Susi sorriu.

— Por favor.

Longo silêncio.

A Droind finalmente respondeu:

— Tudo bem.

Susi comemorou como se tivéssemos acabado de vencer uma guerra.

— Eba!

Começou a andar ao redor dela.

— Deixa eu pensar...

Observou os cabelos.

Os olhos.

A pele.

A personalidade praticamente inexistente.

Então estalou os dedos.

— Serena.

A Droind piscou.

— Serena? — perguntei.

Susi assentiu.

— Sim.

— Por quê?

— Porque ela é calma demais.

A Droind ficou alguns segundos em silêncio.

— Serena...

Pareceu testar a palavra.

— Gostou? — perguntou Susi.

Nenhuma reação.

Então...

Um pequeno movimento de cabeça.

Sim.

Susi abriu um sorriso enorme.

— Perfeito.

Olhei para a Droind.

Não.

Serena.

Era estranho.

Poucas horas antes eu havia tentado matá-la.

Agora estávamos dando um nome a ela.

Olhei para Kem e Will.

Meu sorriso desapareceu.

Ainda havia uma coisa a fazer.

Cavamos duas sepulturas próximas às árvores.

Não eram profundas.

Não tínhamos tempo nem ferramentas adequadas.

Mas eu me recusava a abandoná-los daquele jeito.

Coloquei Will primeiro.

Depois Kem.

Susi permaneceu em silêncio durante todo o processo.

Até Py não saiu de seu ombro.

Quando terminamos, fiquei diante das duas pequenas elevações de terra.

Sem monumentos.

Sem bandeiras.

Sem cerimônia.

Apenas árvores.

— Shini...

Minha voz ficou baixa.

— Will.

— Kem.

Respirei fundo.

— Desculpem.

Apertei o punho.

— Não vou esquecer vocês.

Susi colocou a mão em meu ombro.

Serena observava um pouco mais distante.

Pela primeira vez, ela perguntou:

— Eles eram seus amigos?

Olhei para as sepulturas.

Pensei no começo da missão.

Números.

Abaixei a cabeça.

— Sim.

Demorei alguns segundos.

— Eram.

Talvez tarde demais.

Mas eram.

Peguei minha bússola.

Gustam ficava a leste.

Encontrei a direção.

— Vamos.

Susi ajustou o rifle.

Serena aproximou-se.

— Fiquem atentas — avisei. — Pode haver Droinds, Driadales ou qualquer outra coisa por aqui.

Serena respondeu:

— Já examinei toda a região. Não existem sinais de hostilidade nas proximidades.

Susi inspirou profundamente.

— Certo.

Serena olhou para ela.

— Algum problema?

— Da última vez nosso equipamento também disse que não havia ninguém.

Apontou para trás.

— Quinze minutos depois apareceu um grupo de Driadales.

Serena ficou em silêncio.

— Então permita-me reformular.

Susi ergueu a sobrancelha.

— Não detectei ninguém.

Pausa.

— Ainda.

Susi sorriu.

— Está aprendendo.

Começamos a andar.

Depois de alguns minutos, Susi aproximou-se de Serena.

Fiquei observando.

Sabia que alguma coisa viria.

— Serena.

— Sim?

— Alguns Droinds conseguem falar sem essa voz metálica, não conseguem?

— Sim.

— Você consegue?

Serena demorou alguns segundos.

— Consigo.

Susi parou.

— Então por que não usa?

— Nunca considerei necessário.

— Considere.

Serena olhou para mim.

Olhou para Susi.

Seu pescoço produziu um pequeno ruído.

Algo pareceu se ajustar internamente.

Então ela falou.

— Assim está melhor?

Eu parei.

Susi também.

A voz era completamente diferente.

Feminina.

Suave.

Calma.

Nenhum vestígio metálico.

Parecia...

Humana.

Susi abriu um sorriso.

— Muito melhor.

Olhou para mim.

— Melhor até que a voz do Dary.

Soltei um suspiro.

— Começou.

— Estou apenas dizendo a verdade.

Serena olhou para mim.

— Sua voz não é desagradável.

Susi quase caiu de tanto rir.

— Obrigado, Serena.

— Foi um elogio?

— Acho que sim.

— Então de nada.

Balancei a cabeça.

Talvez aquela viagem fosse ser mais longa do que imaginei.

Olhei mais uma vez para trás.

TNH9 ainda queimava.

A fumaça negra alcançava o céu.

Em algum lugar, além daquilo, um Akuma chamado Killer seguia para uma reunião como se nada tivesse acontecido.

Toquei meu pescoço.

A Marca Negra continuava ali.

Quente.

Esperando.

“Um dia vocês estarão lutando ao meu lado.”

As palavras dele voltaram à minha mente.

Não.

Jamais.

Apertei o punho.

— Dary?

Olhei para Susi.

Ela e Serena me esperavam alguns metros à frente.

Guardei a bússola.

— Nada.

Caminhei até elas.

— Vamos.

Observei a floresta diante de nós.

Gustam nos aguardava.

Um território de Monstros.

Uma Droind deserdada caminhava conosco.

Carregávamos uma marca capaz de fazer nosso próprio povo nos executar.

E um dos seres mais perigosos de Destiny parecia acreditar que algum dia lutaríamos ao lado dele.

Nossa missão havia acabado.

Nossa volta para casa também.

Respirei fundo.

— Temos um longo caminho pela frente.

E seguimos para o leste.


◆

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