ENTRE REFLEXOS E MÁSCARAS
Há verdades que nascem antes dos fatos
e mentiras que sobrevivem depois deles.
Entre uma e outra,
há apenas o homem,
tentando reconhecer o próprio rosto
em um espelho quebrado.
Talvez seja esse o nosso primeiro erro:
acreditar que enxergamos o mundo como ele é,
quando, na verdade,
o enxergamos como somos.
A verdade e a mentira são apenas reflexos
de uma realidade que cada um escolhe enxergar.
E cada olhar escolhe uma parte.
O culpado escolhe aquilo que o absolve.
A vítima, aquilo que ainda consegue suportar.
O rei escreve sobre sua vitória.
O morto já não escreve coisa alguma.
Depois vêm as leis.
Linhas traçadas sobre o caos
por homens igualmente caóticos,
como se algumas palavras gravadas em pedra
fossem suficientes para domesticar
aquilo que carregamos no sangue.
Mas basta que as paredes caiam.
Basta que ninguém esteja olhando.
Basta que a consequência desapareça
para descobrirmos quantos monstros
eram apenas homens bem-comportados.
Quando as leis desaparecem e a ordem desmorona,
o homem acaba sempre por se tornar
o predador do próprio homem.
E talvez seja por isso
que construímos tantas máscaras.
Algumas sorriem.
Outras comandam exércitos.
Algumas dizem “estou bem”
enquanto alguma coisa desaba silenciosamente por dentro.
Chamamos de força
aquilo que os outros não conseguem perceber.
Chamamos de frieza
aquilo que um dia doeu demais.
Chamamos de indiferença
aquilo que aprendemos a não demonstrar.
E chamamos de coragem
o rosto que escolhemos usar
quando fugir já não é uma escolha.
Cada um esconde suas fraquezas atrás de uma máscara
e dá a essa máscara o nome de coragem.
Talvez coragem nunca tenha sido
não sentir medo.
Talvez seja atravessar a noite
sabendo perfeitamente
o que pode estar esperando do outro lado.
Continuar.
Mesmo quando as mãos tremem.
Mesmo quando ninguém percebe.
Mesmo quando dentro de nós
há cidades inteiras queimando
sob chamas que não produzem luz.
Mas existe algo mais perigoso que o medo.
Existe aquilo que fazemos com a verdade.
Porque fatos acontecem apenas uma vez.
As histórias sobre eles
podem ser contadas para sempre.
Um homem pode perder uma guerra
e ainda vencer nos livros.
Pode destruir uma vida
e convencer o mundo de que salvou outra.
Pode transformar crueldade em necessidade,
covardia em prudência,
vingança em justiça
e silêncio em confissão.
Não é preciso mudar o passado.
Às vezes,
basta mudar aquele que o conta.
E quando todos repetem a mesma versão,
quem ainda ousará perguntar
o que realmente aconteceu?
No fim, não é aquele que conhece a verdade que triunfa,
mas aquele que decide aquilo
que os outros aceitarão como verdade.
É assim que nascem heróis.
É assim que fabricamos monstros.
É assim que inocentes carregam culpas
e culpados dormem em paz.
Talvez nunca tenhamos vivido
entre verdade e mentira.
Talvez sempre tenhamos vivido
entre versões.
Reflexos.
Máscaras.
Histórias contadas por sobreviventes.
E quando o último homem deixar a sala,
quando não restar juiz, testemunha ou memória,
a verdade continuará existindo em algum lugar.
Imóvel.
Silenciosa.
Inteira.
Mas já não haverá ninguém
capaz de provar
que ela esteve ali.
Comentários1
Wagner Pascon
Boa história, bem reflexiva.